For colored girls é um filme de 2010 baseado numa série de poemas sobre dramas e dificuldades pelos quais mulheres negras podem passar e que já renderam versões também para teatro. Conta-se, portanto, paralelamente a história de várias mulheres negras, sem uma protagonista facilmente destacável. Este tipo de estrutura, como muitos já devem ter notado não costuma possibilitar um desenvolvimento satisfatório para todos personagens e não acho que aqui haja uma excessão, apesar das mais de duas horas de filme. Todas as personagens femininas do filme passam por situações bastante pesadas, portanto, não espere por um feel good movie e nem por um final que lhes traga algum consolo de verdade.
Ainda que no filme todas as mulheres (e se não estou enganado, todo o elenco) sejam negras, acredito que para passar por qualquer uma daquelas situações basta ser mulher, afinal não precisa ser negra para estar suscetível à estupro, violência doméstica e relacionamentos falidos ou qualquer outro drama apresentado no filme.
O elenco conta com atrizes conhecidas como Whoopi Goldberg (esta você sabe quem é), Thandie Newton (À procura da fecidade), Anika Noni Rose (Dreamgirls), Janet Jackson (irmã de você-sabe-quem), Loretta Devine (Everybody hates Chris), Kerry Washington (Quarteto fantástico), entre outras. Talvez logo de cara você não lembre muito de quase nenhuma, mas não acho que eu esteja enganado em dizer que isso se dá pela falta de personagens interessantes femininos, especialmente os interpretados por mulheres negras.
Algumas personagens chamaram um pouco mais a minha atenção talvez por terem seus dramas mais bem explorados e aqui me permito fazer alguns spoilers. Achei, por exemplo, a trama da mulher estuprada bastante útil, pois se não estou enganado as estatísticas apontam que a maioria dos estupros é cometido por familiares ou conhecidos da vítima. Ao fazer a denúncia, a personagem ainda é submetida a um interrogatório para saber se ela não "procurou" por aquela situação já que o crime aconteceu na casa dela e foi praticado por alguém que fora convidado por ela para estar lá, o que, ao menos para o policial, deve significar que ela possui uma parcela da culpa. E uma frase da vítima resume tudo o que o policial do filme e muita gente por aí deveria saber: "Um estuprador não precisa ser um estranho para ser um legítimo estuprador".
Há uma outra personagem, interpretada por Tandie Newton, e que participa das duas ou três únicas cenas com algum humor do filme, que possui vários parceiros sexuais sem nunca se envolver realmente com nenhum. E ela fala sobre a hipocrisia da sociedade que aceita que um homem possa se comportar assim, mas não uma mulher. Ainda que esse comportamento dela seja resultado de um trauma, o filme faz questão de mostrar em mais de uma passagem que ela é sim uma mulher com valores.
Enfim, há algumas ótimas mensagens para o público no filme; no entanto, se por um lado, ele procura fazer uma abordagem bastante realista de vários dramas femininos, acredito que peque ao mencionar outros "grupos menos beneficiados" da sociedade. Noto isso, por exemplo, quando os dois casos de DSTs do filme são atribuídos a relacionamentos com homossexuais/bissexuais.
Outro problema, ao menos do meu ponto de vista, é que as vezes as personagens parecem recitar os versos dos poemas que serviram como base para a criação do filme no meio de suas falas. Se por um lado é "diferente"; por outro, ajuda a diminuir o ritmo da produção.
Levando-se em conta que apesar de o filme ter tido um trabalho de marketing aparentemente forte (deduzo isso da quantidade de cartazes feitos para o filme, daqueles com um para cada personagem), este (ainda?) não veio para nossos cinemas, posso imaginar que ou o filme não teve a repercussão que se esperava ou nossas distribuidoras o preteriram em favor de filmes mais em evidência (como aqueles que concorreram o Oscar). Não fosse o fato de este ano o dia 8 de março ser bem no meio do carnaval, eu acho que seria uma opção interessante lançá-lo na semana do dia internacional das mulheres, lembrando às pessoas que ainda falta muito para que mulheres (negras ou não) possam viver em condições igualitárias na sociedade.



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